domingo, fevereiro 20, 2011

Escuroclaros


"O jeito que você arruma seu cabelo procurando aquele efeito
que o mundo não quer reparar: - revela tanto.
E o tempo que demora para decidir
se aquilo que está ouvindo é convincente para poder concordar
- e me deixa esperando.
Eu posso esperar".


Adentro teu quarto e a claridade tosca, metade janela-metade sensação, sou eu, escuroclara, e és tu, semente de luz germinando bem no meio da carne minha. Adentro tua casa e sou mais do que lume ou breu roto, redundo em incertezas, blasfemo contra a tua calma, me calo. Não sou digna de perquirir da vida as razões, apenas te vejo e quando isso acontece já não sei se sei ouvir, cheirar, tocar. Amplifico-me para além e tua voz me incandesce de uma luz outra, que já não é fria, pois que é tinta de verões. Nenhuma insanidade há no amor, me dirias, se quisesses, mas sem precisão, porque não há que ser assim ou de outro modo e porque o amor é banal como uma roupa e seus prendedores na corda do cair da tarde ou é intenso como as demoras, o amor. E por nunca ter tido essa leveza de andorinha no calor e não ter aprendido a não perguntar, eu perguntaria quando partirias, e tua resposta seria risada aberta e eu teria medo de cair, porque me suspenderias - passarinho ainda incompetente ao vôo -  e trocarias a música no CD. Um dia, adentraria tua casa e as estantes vazias e a mesa vazia e a cama vazia. Inverno. Luz fria.

(Texto e Imagem: CeciLia Cassal - Belém do Pará, Brasil)

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Um pouco verdes

Pronto: as pessoas nascem poetas! Dom ou sina, a depender do momento, mas é caminho sem volta. Um jeito especial de olhar o mundo, umas perguntas que mais ninguém faria, e eis um ser em estado de poesia.
No cedo da manhã, Larissa olhava comigo a maré baixa.
- Onde estão seus filhos, agora?
Pensei um pouco. "Estão com as namoradas".
- Qual é a cor dos olhos das namoradas deles?
"Azuis, eu penso. Ou verdes..."
- Os meus olhos são negros.
Os olhos de Larissa eram onix maciços, escondidos por pestanas longas, cortinas contra a maresia.
- E os seus, de que cor são?
Olhando para ela: "marrons, eu acho". Ela considerou em silêncio durante um tempo, então concluiu, mais para si mesma do que para mim:
- Mas são um pouco verdes, também.
Confundia o mar da quarta praia com os meus olhos, a pequena Larissa, 8 anos, negra, nativa da ilha, que nascera poeta.


(Texto e imagem: Cecilia Cassal - Morro de São Paulo - Bahia - Brasil)

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Ah, o Amor

"cada ciudad puede ser otra
cuando el amor pinta los muros
y de los rostros que atardecen
uno es el rostro del amor."
Mario Benedetti
A neve escorria dos cumes pelas encostas e jogava, nas lentes da câmera, reflexos perpendiculares de sol e branco. Da janela oposta, ele acompanhava as mudanças do relevo, as cores das rochas, os lagos inesperadamente verdes, as curvas da estrada. Ocupávamos os primeiros assentos da parte superior do ônibus que cruzaria, durante mais de sete horas, cordilheira, fronteira e muita expectativa. Por vezes, apontava-me em silêncio alguma vertente derretendo-se pelos veios das pedras. Não estando indiferente, era antes um enigma alegre que se desenhava no meio sorriso permanente de sua face inteira, onde exibia a barba ainda não de todo cerrada e algumas espinhas. Vinte anos? Talvez.


No tempo de espera na aduana, a possibilidade do diálogo:

- Te vas de vacaciones?
- No, mi novia vive alli. Voy a cada quince dias.

E sorriu um sorriso tanto maior, quanto a alegria indisfaçada nos olhos.

- En su opinión, cuáles son los mejores lugares de Santiago?

Refletiu um instante...
- No lo sé. Todo es hermoso en el lugar donde vive la persona que amas.

(Texto e Imagem: Cecilia Cassal)

quinta-feira, novembro 04, 2010

Ele, meu pai.


Quatro de novembro, dia de meu pai. Hoje - vencedor das imensidades poderosas - completa 80 anos. Sou toda sentimentos, pai, e não sei dizer sem molhar os olhos, as coisas grandiosas que merecerias que te dissesse. E não sei abraçar forte e lenta, do jeito que deveria, e sou tão bobamente frágil que nem ouso te ligar, porque a voz ia ficar esganiçada e eu ia ter de simular uma tosse e desligar antes de dizer o que o meu coração queria... Por isso, hoje só te mandei mensagem no celular, e te imaginei chorando quando leu, como eu, quando escrevi. Somos igualmente bobos e sensíveis, e essa é a melhor inscrição igual do nosso DNA. Por isso também vou te abraçar amanhã meio com pressa, e tu vais sair de lado e mudar de assunto, e vais perguntar algo trivial. Mas ambos saberemos. Um beijo, meu pai. Só isso.


(Texto: Cecilia Cassal - A imagem? presente dele, um dia)

quinta-feira, outubro 28, 2010

N.

Ela é pequena, branca, tem 76 anos e diz que espera ficar velha para ir morar em Caiobá. Empresta a cada coisa um tempo muito menor do que o necessário, assim, tudo o que faz é ágil, ligeiro, como se a vida oferecesse algum apressamento. Porque diz que o riso salvará o mundo, ri sempre. Desde o nosso primeiro encontro, há dois anos, reafirma seu carinho. Abraça-me forte:
- Continuamos grandes amigas de infância?
Sem sair do abraço, respondo:
- E seremos sempre assim, até que ambas estejamos bem velhinhas.
Três décadas nos separam.

sábado, setembro 25, 2010

Entre Sombras

Transita entre ruelas que anoitecem à medida que enveredamos pelas linhas. Palavras-paralelepípedos, a dureza da pedra antes de ser atirada, nas mãos a frieza quadrada da pedra na penumbra. Mulheres. Vultos. Um espectro cavando um poço. Um nada consistente que interroga, lá do fundo, o que vem depois. Diáfano como a noite onírica, pesada como uma pedra na mão pronta para estilhaçar-nos as certezas numa açoriana rua vespertina que vai escurecendo, mulheres que nos tomam – leitores em suspensão – em suas teias, o segundo livro de contos do Saul nos povoa de signos que (in)deciframos e assim se demoram em nós, bem depois da leitura. Falam de vida e morte, música e arte, os contos do Saul Melo. Mas não de uma arte como a que andamos vendo em eventos recentes, essas artes difíceis de entendermos porque mal ajambradas, feitas de uma vontade de provocação que não se completa no olhar do outro. A arte do livro é costurar devagar um presente sempre relativo e os mitos, fiandeiras palavras. Assim, o Entre Sombras é um livro de contos para ser lido lento, um vinho raro que se bebe só, uma luz pequena iluminando o livro, a poltrona no canto do silêncio, o nada escuro no entorno. Eu gosto disso: textos que se entregam aos poucos, em camadas, o encadeamento dos contos quase um rosário, um colar de cont(a)(o)s, uma novela, para quem souber entender. Como a vida, com seus acontecimentos desconexos não se entrega assim, fácil, nem ao primeiro beijo, tampouco a algumas horas sobre um divã. A vida, como no livro do Saul, vem de degustar aos poucos, solene, em um ato onde a avidez só estraga, atropela, profana. Não, não vou falar mais sobre os contos, que isso a excelente Cíntia Lacroix (Sanga Menor, Dublinense, 2009) fez com toda a propriedade do mundo na apresentação do livro que – como se o conteúdo por si só não bastasse - tem um projeto gráfico belíssimo de capa e uma editoração primorosa.

Chega! Vamos ao convite. Volto em breve a essa órbita, num já que nunca sei bem quando.
Abraços em vocês.



sexta-feira, agosto 20, 2010

A Ponte (ou: ainda pensando em Lèvinas)

A Ponte é o abraço do braço de mar com a mão da maré. (Lenine)
Olha-me, o outro, do outro lado da ponte. Nada espera, travessia, gesto, mote. Tudo desperta, resposta, reconhecimento, suporte. O outro anda e seus passos encorajam e libertam. Porque se move, provoca o movimento. Por existir, interroga, brando e silente: a que vem, o encontro? Brinda-me, o outro, com o infinito das possibilidades, brinca com o futuro, dispõe-se a mudar passados. A ponte é o outro. A ponte e o outro. Aponte o outro, para cruzar a vida. Interpela em mim o que ainda não sou. Produz-me, na resposta. O outro é um convite à outra margem, o outro é provocação: ponte a transpor. A ponte, no outro, é o outro lado, um país e suas bandeiras, mistério e possibilidade, o estrangeiro a quem acolho, mas que não fala a minha língua nem atende às minhas leis. Constitui-me, o outro, desde o primeiro olhar; tangencia-me, por vezes me atravessa. Permite passagens, oferece anteparo, cria a possibilidade. Olhar a ponte é nascer do outro, reinventar na memória texturas, vãos, lonjuras, perguntar-se o tamanho do passo, a fundura do rio, a correnteza no abraço. Há ... braço? Olha-me, o outro, do outro lado da ponte. Nada espera, travessia, gesto, mote. Eu atravesso.
(Texto: Cecilia Cassal Imagem: do filme As Pontes de Madison)

segunda-feira, maio 17, 2010

Tarde

A porta se abriu e eu não estava. Logo agora, que tinha chovido novamente sobre as páginas largas dos coqueiros e na areia esculpiram-se incontáveis furos, tais como furnas nos formigueiros, tais como tocas, nos pés dos muros. Logo agora, quando ainda não era a hora que gostarias, mas chegavas e percebias a geografia sublime, logo agora eu já não estava. Todos preparam as suas mortes e o tempo de esperar preparara as suas. No mar vazio além da varanda e na praia oca faltaria o colorido de um vestido distante mas que, em sua memória, voltaria sempre à casa. Como tantas vezes. Logo agora, você pensa, que eu verdadeiramente já queria, agora que já poderia. Então, esbravejaria o engano e a crueldade de seus desejos insatisfeitos: logo agora!, e o batente da porta receberia a raiva de sua mão espalmada e nesse momento talvez minha face esquerda ainda corasse uma derradeira ardência. Logo agora, moço. Logo agora!
(Texto e imagem: CeciLia Cassal)

segunda-feira, abril 26, 2010

Da tirania dos cordeiros

Para entender com outros sensos a alma minha, A minha alma
Tudo o que exagera me enlouquece:
tédio, volumes, vulgaridades
burrices, hormônios, deslealdades.
Nenhuma maldade é suficientemente pequena
(pequena é a alma que a contém).
Tenho vícios de cordeiro
e também sua tirania.
Nunca aprendi a revidar.
Mil vezes, mil vezes
a minha melancolia, essa forma
quase doce de abençoar
quem não fui, embora
por vezes me enjoe.
Tudo quanto não sei
me exaspera. Exagero!

Texto: CeciLia Cassal Imagem: Mario Alexandre

segunda-feira, abril 12, 2010

Notícia

Os pais estão bem e
cultivam em silêncio cúmplice
os mates quentes.
Nem a ira
nem as demasiadas alegrias
roubaram deles
a claridade das manhãs.
.
Sobre amarrotados lençóis
os filhos dormem
o sono dos jovens
tresnoitados.
.
Um gato delineia-se
entre a lua e a vidraça
enquanto em algum lugar
o Amor lê uma história
de que me contará partes.
.
Nem todo o pessimismo
de mil filósofos
arrancaria de mim
essas felicidades.

Texto: CeciLia Cassal - Imagem daqui

terça-feira, março 30, 2010

A propósito,


Imagem e Texto: CeciLia Cassal - Rio de Janeiro, Brasil

quarta-feira, março 24, 2010

Música


Imagem: Steve Hanks Texto: CeciLia Cassal

quarta-feira, março 17, 2010

Porque eu acredito !



Quando escrevi isso era novembro de 2009. Na geladeira, a todos que chegassem, saudando o que estaria por vir. Depois disso, um acidente, um osso partido, uma cirurgia, uma mudança, várias mudanças, uma obra, outras mudanças, cancelamentos, adiamentos, crises cheirando a cimento e gesso...

O importante ficou intacto: a solidariedade de quem me é caro, a confiança em quem merece, o abraço em todas as horas. Nesta retomada de escrita, um agradecimento especialíssimo a quem esteve tão perto a ponto de molhar seu ombro com minhas lágrimas e a quem não esteve perto, mas me sabia, me sabia, me sabia.

Aos que foram meu joelho, minhas muletas, meu sedativo, meu oxigênio, minha transportadora, meus confidentes, meus amados:


MUITO OBRIGADA.


É por vocês que acredito na ESPERANÇA e na POSSIBILIDADE.



Que finalmente inicie 2010. Por todos nós.
(Fotografia: desconheço o autor. Texto: Cecilia Cassal)

sábado, dezembro 19, 2009

A todos vocês, com quem compartilhei 2009

Porque é dessas trocas onde tantas vezes apenas nos lemos, palavras e olhos, de que me alimento. Obrigada a cada um que visitou minha Lua, anônimo ou declarado. Simplesmente obrigada.
CeciLia Cassal
(imagem: CeciLia Cassal - Texto: Manoel de Barros)

terça-feira, novembro 24, 2009

(Texto: CeciLia Cassal Imagem: Pedro Moreira)

quarta-feira, novembro 04, 2009

João Rudá



Rio dos Ameandros, 03 de novembro de 2009.

Senhora,

Não estranhe esta carta, eu apenas não sei falar. Mas escrevo. E graças às coleções de livros e revistas que deixou no rancho nas últimas vezes em que lá esteve, tenho escrito textos cada vez mais longos. Escrever tem me devolvido uma certa espécie de som e também por isso sou-lhe agradecido. Comecei com aquele livro enorme que tem as fotografias sobre as flores, depois o dos legumes, o das cercas vivas, aquele das pequenas frutas vermelhas da França... Quando me dei conta, não tinha passado um único dia destes últimos anos sem que eu sentasse na soleira do seu rancho (aliás, há uma tesoura no telhado sobre a cama que precisa de reparos. Se me autorizar, tratarei de trocá-la) depois das lides do jardim e da horta e lesse muitas daquelas páginas, antes de voltar para a casa. Li aquelas histórias e tratei de imaginar os lugares de que falavam, os tempos onde tinham sido escritos. Um deles lembrou as chuvas deste inverno sem fim e as cheias que enfrentamos no Rio dos Ameandros, as vacas boiando nas águas ligeiras, as barrigas inchadas de enchente e morte. Mas devo confessar-lhe que não gosto das poesias, talvez porque ainda não consiga achar para elas uma utilidade. Um dia, encontrei umas páginas escritas com sua letra. Achei que deveria voltar a dobrá-las e devolver-lhes ao livro. Fique sossegada, não li e nem toquei mais naquele volume.

Mas deixa que retome o que explicava no início, já que sei que deve ter ouvido várias coisas sobre a minha doença no armazém. Como todo mundo sabe, eu desaprendi a falar. E mais, nem eu não sei se sei falar. Há muito, uma doença que nunca me explicaram direito, tirou o som da minha própria voz. Tirou-me o som do mundo que eu conhecia. Contava eu a idade em que os pelos começam a aparecer no corpo de um piá, quando a febre chegou. Lembro da dor em minha cabeça, como se ela tivesse sido sendo aberta com um golpe de machado. Lembro de ter ficado parado por medo de que doesse mais. Nada mais, desse tempo. Dizem que dormi por meses, disso também não sei. Quando acordei, o mundo era feito de um escuro absoluto de ruídos. Não entendia o que aconteceu e, não sabendo se poderiam responder-me, preferi não perguntar, por fraqueza, susto ou abandono. Nada havia a fazer, além de ocupar-me dos dias chegando e morrendo através do vão feito janela aberto na parede de barro e palha do rancho onde morávamos, meus pais e irmão. Tomaram-me por mudo, acatei. Por isso, hoje não sei se sei falar. Aprendi a ler os olhos, muito mais do que os lábios. Sinto, muito mais do que compreendo. Algum tipo de silêncio, (lembre, para mim a vida é essa ausência da maneira mais absoluta que a senhora conseguir imaginar) principalmente aquele que chega cedo na manhã, me encanta e possui pelo dia todo. Ele parece mais completo do que o silêncio das vozes que não ouço. Aprendi a ler cedo, - ainda quando meu irmão freqüentava a escola e não tinha ido embora para a cidade - e a procurar tarde nos livros a relação com o que não ouço, mas pressinto. Com os livros, os bichos e os silêncios, enfrento, sem lutas, uma solidão de que não sofro.

Como a senhora sabe, nos últimos anos Helga preenche os meus dias com suas conversas. A ela pouco importa se eu respondo, se compreendo, se gosto: ela precisa falar e eu a olho. Nada mais é necessário, além de seus temperos plantados em linha sobre os canteiros, do que o cheiro de sua comida, nada mais além das suas panelas areadas e secas ao sol. Existem entre nós cuidados que poderiam evitar as palavras. Sobre Helga, tudo anda bem. Às vezes penso até mesmo que ela esteja feliz, de uma felicidade que eu aprendi definida nas coisas que leio.

Como primeira vez, tomo a liberdade de escrever-lhe para que possa dar-me também uma voz e porque temos sentido a sua falta, neste rancho em que a senhora decidiu colocar o nome do rio. Atrevo-me a mais do que escrever-lhe para – com todo o respeito que me foi ensinado – contar-lhe das últimas estações, do tamanho que as parreiras tomaram, da taipa que foi aprontada lá para o final do terreno, dos cardeais que fizeram ninho no oco queimado do raio, na árvore do fundo, dos alagamentos que arrastaram casas e gado e colheitas pelo rio. Escrevo-lhe por ter pensado e escrito umas impropriedades e dar-me ao desfrute de dizer-lhe, se não for para que se ocupe em corrigir-me, apenas para que talvez algo tente tocar-lhe nestes tempos em que não sabemos da senhora.

Outro dia escrevi assim: Um rio não precisa existir, se ninguém senta às suas margens para contemplá-lo. Um rio não merece existência, sem alguém que nele mergulhe, por necessidade ou gana ou simplesmente por amor à fluidez das águas entre as peles. Um rio não precisa, um rio nem precisa.

Por favor, Helga e eu gostaríamos de saber suas notícias, depois do seu adoecimento. Depois da morte de meu irmão, a senhora entrou em nossas vidas, fez-nos cuidadores de sua propriedade. Também nos afeiçoamos aos labradores e, como eles, nos alegra a poeira levantada pelo seu carro, quando completa a última curva da estrada. Não tome a mal essa carta, não a pense como uma impertinência. Apenas receba nosso reclame de saudade. Helga, se soubesse que lhe escrevo agora, talvez quisesse oferecer-lhe um chá.

Pense sobre o Rio.

João Rudá
(Imagem e Texto: CeciLia Cassal)

sábado, outubro 03, 2009

Um Presente para Vênus

Eu não disse? Esta rede dá peixes-palavras a mancheias. Dá amigos de prosa boa em uma margem de rio caudaloso. E dá adornos à Vênus Libriana que mora em mim.

Ganhei este selo da Jacinta Dantas, de coloridas idéias. Beijo, querida, obrigada pelo mimo.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Nós na Rede

Porque, quando a gente silencia, é que a Palavra,
- peixe no fundo, nas margens, nas bocas dos rios, -
se cria.
Quando a gente se solta e mergulha,
sempre alguém de rede boa
captura em nós alguma poesia.
Aqui vai um convite a todos vocês. Este ano NÓS, os nós dessa rede virtual de palavra-poesia, somos quatro. Quem sabe no ano que vem o Porto Poesia albergue Nós-Quatrocentos?
Mara, Juliana e Renato, agradeço honrada o convite. Farei o possível para estar à altura.
Um beijo em vocês,
CeciLia

sexta-feira, setembro 18, 2009

Mistério


O Gato


Ela não me fala, mas sei que está lá. Sei mais, além do fato de que me sonega a tristeza e alguma queixa concreta. Conheço as coisas que insiste em não dizer, embora às vezes chegue a pressentir que ela já sabe. Há uma brincadeira que se desenrola entre um felino que sou eu e uma borboleta: a verdade dela. Posso esperar, também carrego meus inevitáveis segredos. Quase sempre tenho medo de que ela os leia numa melancolia mais densa escondida com cuidados atrás do vidro velado dos meus olhos. Depois acho que não, ela se move superficialmente demais na vida para que possa suspeitar-me. Mas eu queria que ela ou alguma outra me desvelasse um dia. Ah, tal mulher teria mais do que a minha alma, as minhas setenta vidas, todos os meus instintos, os meus melhores sentidos: teria a minha história reinventada exclusivamente pelo seu contentamento. Ela não me fala, mas há um silêncio que perpassa a distância que nos cabe através da mesa, das flores no jarro, dos copos e dos talheres, um oco que me transfixa uma dor e segue além de mim. Atrás da sua verborragia, tem esse silêncio sólido e poderoso que ela tenta esconder, mas eu sei. Sei?



A Borboleta

Ele me olha e eu acho que sabe. (__) Já disse um poeta que há coisas que nunca deveriam precisar ser ditas, em se tratando de amor. Verdades que se envergonhariam, caso não fossem generosamente adivinhadas pelo outro. Há muito temo pela vulgaridade de certas falas; mais prudente – em se tratando de manter a delicadeza - é guardar o segredo e silenciar. Há coisas demais na vida que podem ser ditas: o dia lindo, a decoração agradável, alguma notícia recém lida. Melhor manter a alegria efêmera de uma borboleta: tocar de leve o prato, a frase, os temas... É preciso preservar no outro a liberdade de não saber e, não sabendo, nada necessitar fazer. Desse modo, guardo comigo a dor que não se pode dizer, mistério enjaulado, peixe que raramente sobe bem próximo à superfície para logo em seguida sumir novamente na escuridão do fundo. Só não posso demorar-me demais em seus olhos: tenho as asas demasiado transparentes.
(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: Hugo Amador, "Amor em Tons de Branco")

domingo, agosto 09, 2009

Divã. (ou) Um desagravo à desonestidade

Há muito não escrevo nada. No exato momento em que explicito isso, penso nas centenas de prescrições, aulas e listas que vão de supermercado à manutenção da casa, bilhetes e e-mails que andei escrevendo nas últimas semanas. Corrijo: há muito não posto nada. Normal, alguns pensariam e atribuiriam aos lapsos de criatividade que acometem periodicamente a todos que escrevem. É mais. Alguns delicadamente me cobram: “o que acontece, CeciLia, há dias entro aqui no Lua e nada aconteceu?!”

Ainda ontem pensei em escrever um texto iniciado várias vezes penitenciando e – de certo modo – louvando as infinitas distrações da pessoa desse lado do teclado. Não deu. Não era isso. Havia outro assunto que precisava ser olhado, possuído, esgarçado. Passavam todos os temas e ele continuava lá, à espera. Um assunto com o qual não queria nunca mais envolver-me e assim dava um jeito de fechar-lhe a porta. Não adiantou, entrou pela porta dos fundos, como todas as verdades que precisam ser olhadas.

Falo aqui da honestidade. Não da honestidade inexistente e utópica de quem não erra. Falo da possibilidade de errar, explicitar o erro e incorporá-lo ao que se é. De pisar na bola e pedir desculpas. Das meias-verdades, mentiras inteiras, das omissões importantes e que roubam ao outro a possibilidade de julgamento e decisão com o conhecimento todo sobre alguma situação. Falo da insistência que algumas pessoas possuem nas duplas agendas, nas vidas paralelas, na falsidade crônica, na forja estúpida de uma imagem que nunca lhes pertenceu. Falo na necessidade de enganar, ocultar, manipular, optar por caminhos indiretos quando a verdade é tão benéfica, tão simples.

“Mas essa não é a CeciLia, vocês devem estar pensando, ela aqui sempre tão envolvida com coisas mais etéreas e menos mundanas. Por que resolveu fazer essa conversa, logo aqui, lugar de Vênus?”

Explicito um lugar-comum: odeio gente sacana. Assim mesmo: ODEIO! Odeio gente invasiva, inescrupulosa, gente sem limites mínimos de respeito à coisa ou sentimento do outro. À verdade merecida pelo outro. Gente a quem um tratado inteiro de ética aplicada não mudaria nada na vida. Gente para quem os fins – os que trazem benefícios a si próprios, bem entendido – justificam todos os meios. Talvez aceitem um rótulo de compulsivos, sociopatas ou borderlines, porque um diagnóstico da ciência provavelmente mascare e amenize a sordidez da criatura e seus feitos.

Há mais de cinco anos alimento estes diários virtuais. Já escrevi para o Margaridas, meu primeiro blog, para um primórdio de Lua em Libra, quando o Terra resolveu desativar o Weblogger, e hoje alimento este espaço onde vocês me lêem. Não foram poucas as pessoas a questionarem sobre livro que não publico por uma série de razões que não cabem aqui e que – sinceramente - nem sei se conheço todas. Fui selecionada em alguns concursos literários, nesse período, participei de antologias. Para brincar melhor nesse jogo com a Palavra, frequentei oficinas com diversos e bons professores. Sobretudo, interagi aqui. Ganhei amigos a quem conheço pessoalmente e não, elaborei crises, dividi saudades, compartilhei visões. Há muito acredito que, uma vez ministrada uma aula ou publicado um texto, eles pertencem ao interlocutor, o que não elimina o fato de ter sido gerado por alguém. O que alguns nunca aprenderam foi que a gente explicita o autor, quando cita uma produção de outrem. A ciência e a literatura são de domínio público. Ou não se podem chamar assim. Deste modo, e porque nunca me apropriaria de produção alheia sem citar a autoria, publiquei aqui um bocado de coisas.
Esse é o verdadeiro motivo de estirar-me neste divã: há uns meses fui informada de um plágio. Uma presumida distinta senhora, na época à frente de uma associação de escritores, simplesmente roubou-me um poema. Alguém que se propôs, ao menos por um tempo, defender a literatura e seus escritores publicou em seu livro, como se dela fosse, um dos meus poemas mais caros: aquele que escrevi no dia dos meus quarenta anos, no caminho e à frente de uma lagoa que recebeu-me a comemoração solitária por opção e necessidade de recolhimento. Um poema que, dois anos antes do roubo, tinha sido selecionado e publicado na antologia dos Poemas no Ônibus, com a autoria correta. Confesso, há dois meses tento assimilar o fato. Fiz contatos, pedi explicações inexistentes. Nada. Tenho em minha mesa os dois livros, de 2004, com o meu poema e de 2006, com o que ela publicou.

Muitos já o conhecem, mas transcrevo-o mais uma vez aqui, ratificando a autoria.

Não Gosto

Em dias de maior tristeza
permita-me desaparecer
sem deixar bilhetes
sobre a mesa.

Ocorre que nestes dias
ando com a alma aos farrapos
(isso aprendi com os gatos)
não gosto que me vejam
morrer.

CeciLia Cassal

(Texto: CeciLia Cassal. Imagem: José Paulo Andrade. Música: Sonho Impossível, com Maria Bethânia)